Imagine depender de um poço para beber água. Você não construiu esse poço. Ele não está no seu terreno. Você apenas espera que ele continue ali amanhã.
É mais ou menos assim que funcionam as relações entre usuários e plataformas de tecnologia hoje. Você cria, organiza, automatiza e pensa com ajuda de um sistema que não te pertence. E que pode mudar ou desaparecer a qualquer momento.
É o que alguns economistas têm chamado de tecnofeudalismo. Um modelo em que os usuários não são bem consumidores, nem bem cidadãos. São vassalos. Gente que habita o terreno de uma plataforma e, em troca, cede seus dados, sua atenção e sua dependência.
O caso do ChatGPT é um exemplo claro. Um modelo de inteligência artificial que virou extensão do cérebro de muita gente para estudar, trabalhar, pensar. Mas que é propriedade de uma empresa. E que pode deixar de estar disponível do dia pra noite. Pode ficar pago. Pode ser alterado. Pode ter regras que mudam sem aviso. E, ainda assim, continuará sendo algo de que você precisa.
É a mesma lógica de quem depende do Instagram para vender, do Google Docs para produzir, do Notion para se organizar. São ferramentas extremamente úteis. E é exatamente por isso que é perigoso se esquecer de quem é dono de quê.
Isso não significa parar de usar. Mas significa cultivar alguma forma de independência tecnológica. Guardar seus arquivos fora da nuvem. Aprender a pensar sem depender de prompts. Ter alternativas offline. Evitar que todo seu processo mental dependa de um login.
Os senhores feudais digitais não vão te avisar quando mudarem as regras. Mas o estrago da dependência total sempre vem. E quando vem, não tem para onde correr.
Se hoje o poço está ali, ótimo. Use. Mas não esqueça de guardar baldes de água e aprender a cavar. Ou seja: experimente escrever seus textos de forma mais independente, não se incomode em usar uma agenda física para se planejar e cultive mais relacionamentos pessoalmente, assim você não fica refém do tecnofeudalismo para viver.